Quem estudou usando livros desegunda mão sempre sonhou com folhas que não rasgam, não molham e que,de quebra, ainda podem ser lavadas.
Demorou, mas um papel assim já foiinventado - e por brasileiros. Durante dois anos, pesquisadores daUniversidade Federal de São Carlos (UFSCar) e engenheiros da Vitopel,fabricante de embalagens, ambas do interior paulista, buscaram um jeitode reciclar os refugos de produção da empresa, instalada nas cidades deVotorantim e Mauá (SP).
Foi assim que acabaram pordescobrir a receita do Vitopaper, um papel sintético feito de lixoplástico, mas com aparência e toque do papel-cuchê. Fruto de uminvestimento de US$ 4 milhões da Vitopel e de um aporte da Fapesp,fundação de apoio à pesquisa, a invenção foi patenteada e pode servendida ou produzida pela companhia em qualquer parte do planeta.
Apesarde ser plástico, o novo papel permite a escrita a lápis e caneta, alémda impressão em gráficas. Pode ser usado na fabricação de livros,outdoors e banners, e também na confecção de material de papelaria.
Além de reunir todas as condições para ganhar as aplicações normais, onovo papel tem algumas vantagens. Uma delas é a ambiental: para cadatonelada produzida, 850 quilos de lixo plástico deixam de chegar aosaterros sanitários e pelo menos 30 árvores ficam de pé. "Além disso,consome menos água e energia na fabricação", afirma Sati Manrich,especialista que trabalhou na pesquisa na UFSCar. Mais resistente e durável, o papel feito de lixo economiza 20% em tinta durante a impressão e pesa 40% menos.
Aengenhosidade dos pesquisadores consistiu em aproveitar todos os tiposde plástico, conhecidos por siglas. Garrafas de refrigerante (PET),frascos de óleo de cozinha (PVC), tapetes infantis (EVA), sacos paraalimentos (PP) e sacolas de supermercado (PE) entram juntos numtriturador, são higienizados e se transformam em matéria-prima para aVitopel.
O projeto só deslanchou porque as diferentes variedadespuderam ser usadas conjuntamente. "Não é viável a separação dosdiferentes materiais no processo de coleta seletiva", afirma JoséRicardo Roriz Coelho, presidente da Vitopel. Uma das restrições dopapel sintético feito de lixo é o uso em embalagens para alimentos.
AVitopel planeja produzir 30 mil toneladas por ano do novo papel. Porironia, a dificuldade hoje tem sido obter quantidades suficientes dedetritos. A rede de cooperativas encarregada de recolher o lixo precisaagora garantir dois aspectos essenciais ao processo industrial: aregularidade no fornecimento e o volume.
Por Karla Spotorno
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