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04.06.2010

Papéis protegidos

Fique por dentro do processo de fabricação

Parte de nosso cotidiano, os impressos de segurança estão inseridos em um universo de grandes proporções, que envolve desde selos de cigarros, de bebidas e CDs, passa por cheques, vales de serviços, apólices, bilhetes de loteria e passaportes, até o mais conhecido de todos eles, o papel-moeda.

Papéis e tintas especiais, e equipamentos que combinem dois ou mais processos simultaneamente, são basicamente os recursos necessários para produzir impressos de segurança, ou seja, todo e qualquer material com itens de garantia que inviabilizem – ou pelo menos dificultem ao máximo – sua falsificação.

A Wintech do Brasil, de São Paulo, é uma das gráficas comerciais especializadas na produção de impressos desse tipo, que representam 55% de seus negócios. O diretor Marco Antonio Gravio explica que, na impressão, são empregados combinadamente a tipografia, a flexografia, o offset e a serigrafia. Para garantir total segurança, o processo é monitorado em cada um dos setores por onde o produto circula. “Impressos numerados, como extratos de bobinas lotéricas, possuem um sistema de tracking para monitoramento e rastreabilidade”. Esses cuidados com sistemas internos de controle também são prioridade na gráfica Thomas Greg, pelo fato de produzirem impressos para órgãos públicos. “Todo processo é auditado e rastreado em tempo real. Nossa unidade industrial é totalmente fechada e controlada nos quesitos de entrada e saída de material e de pessoal”, revela o diretor Afonso Siqueira.

Além de ser a responsável pelo suprimento do meio circulante nacional, a Casa da Moeda do Brasil (CMB) ocupa uma fatia expressiva do mercado de produtos gráficos de segurança, prioritariamente para atender ao setor público. Com sede no Rio de Janeiro, a fábrica de cédulas da CMB tem capacidade instalada para produzir cerca de 1,5 bilhão de unidades por ano. “Para esses impressos utilizamos papéis de segurança total, com a marca d’água moud made, que é superior a dand roll empregada em outros documentos, como carteiras de identidade, diplomas e certificados”, informa o diretor técnico Carlos Roberto de Oliveira.

Todas as tintas utilizadas pela CMB são especiais, as chamadas fiduciárias, resistentes a agentes químicos e com a propriedade de “solidez à luz” – que não sofre alterações mesmo depois de cinco dias exposta ao sol intenso. ”Se você esquecer a cédula num bolso da roupa e colocar na máquina de lavar, essa cédula não se descaracteriza, pois a tinta resiste a produtos como acetona, detergentes e saponáceos. Isso é necessário porque existe um tipo de falsificação que é a lavagem física da cédula, a fim de que se utilize o papel autêntico”. Oliveira explica que são agregados outros itens especiais, a exemplo do fio das cédulas que é inserido durante a fabricação do papel. “É uma exigência do Banco Central, porque esse recurso responde aos instrumentos eletrônicos empregados no processo de seleção das cédulas”.

Entre os sistemas de impressão empregados pela CMB, o principal é a calcografia (intaglio), seguida pelo offset seco - cujo processo é totalmente diferente do convencional, desde a chapa até a impressora. “Somente um perito consegue diferenciar o úmido do seco, e isso dá uma garantia de segurança a mais aos impressos”, comenta Oliveira. “No caso dos selos de controle, por exemplo, os profissionais da Casa da Moeda estão aptos a fazer laudos técnicos para comprovar, em caso de questões judiciais, se aquele impresso é ou não autêntico”. Em terceiro lugar está a rotogravura – utilizada para impressão de selos ordinários – e, em menor escala o silk screen, indicado para a impressão de itens que usam tinta oticamente variável.

Extremamente complexo, o processo para obtenção de matriz calcográfica para produção de cédulas inicia-se pela pesquisa sobre quem será homenageado naquela nota. Depois, segue-se a criação da arte, o processo de computação gráfica, a gravação da matriz, a incorporação dos processos de segurança e assim por diante. “A confecção das matrizes requer grande uso de Tecnologia da Informação (TI), com emprego de CtP tradicional e Ct Intaglio Plate, processo de gravação a laser diretamente na chapa Intaglio, que é um método mais ‘amigo’ do meio ambiente”, informa Oliveira. Ele acrescenta que essa gravação requer ainda outros recursos contra a ação de falsificadores, como a implementação de códigos de barras bidimensionais e Data Matrix – matriz 16 x 16 pontos que pode usar tinta invisível. “Nessa matriz são inseridas as informações que permitem rastreamento de controle, daí a necessidade do suporte de TI”.

Segurança em papéis


De acordo com as gráficas, a base dos impressos de segurança está no desenvolvimento de matéria-prima adequada. Ou seja, papéis e tintas especiais que necessitam de elevado grau de conhecimento por parte dos fornecedores. No papel, o principal elemento de segurança ainda é a marca d´água ou filigrana, – as figuras ou textos obtidos por diferença de concentração de fibras na massa do papel durante a fabricação, visíveis por observação contra a luz.

A multinacional Arjowiggins é uma das empresas especializadas nesse segmento, que responde por 60% do total de seus negócios. O gerente de Marketing em Soluções de Segurança, Marcos Tadeu de Lorenzi aponta outras características, como a composição, que pode ser mista de celulose de madeira com algodão para que o papel tenha maior resistência, garantindo maior durabilidade ao documento. “Há casos mais específicos, por exemplo, para impressão de cheques, cujos papéis têm reações ou propriedades físicas que evidenciam tentativas de adulteração, e os cupons de premiações, que podem receber sistemas de rastreamento e verificação de autenticidade”.

Há 24 anos nesse segmento, que representa cerca de 25% de seu faturamento, a Filiperson trabalha com produtos desenvolvidos para apresentarem alto grau de requisitos de segurança. Em cada tipo, de acordo com sua finalidade, são adicionados recursos, como marca d’água genérica em diferentes padrões ou com a logotipia do cliente; fibras sintéticas coloridas ou implantes de Starlights (SL) que se tornam visíveis somente sob ação de raios UV, além de Planchetes Coloridos (PC) ou Planchetes Holográficos (PH) visíveis. Também há papéis que recebem em sua composição reativos químicos a solventes, oxidantes, ácidos ou bases usados para adulterar os documentos.

De acordo com Cláudio Matos, gerente de Vendas da Divisão Papel, cada cliente contribui com o controle de segurança da Filiperson. “Eles definem previamente a utilização a que se propõe o material, bem como a responsabilidade por seu emprego exclusivamente para essa finalidade. Deste modo, garantimos o ciclo de segurança na fabricação, na produção gráfica, e na utilização pela instituição ou órgão solicitante”.

Tintas especiais


A Premiata Tintas, em conjunto à sua coligada Loricheque, ampliou significativamente o leque de produtos destinados a impressos de segurança, incluindo tintas de tintas de talho-doce, que proporcionam uma espécie de relevo ao impresso com grande resistência química e mecânica; as reativas, que sofrem alterações quando em contato com solventes orgânicos ou inorgânicos; as reativas a luz UV, fundos incolores que se tornam visíveis sob a chamada “luz negra” e podem reagir com cores diferentes. “Há as reativas a metal, muito utilizadas em cartuchos de remédios, que também são incolores e sofrem alterações quando atritadas por algum objeto de metal, como moedas e clipes, a incolor, ou ‘fundo nulo’, usada largamente em cheques, que reage sob a presença do hipoclorito de sódio, e as termocrômicas que são incolores, mas reagem sob variações de temperaturas, tanto baixas como altas”, informa o diretor técnico Sandro Garbim.

Há 43 anos no mercado, a Sellerink está entre os principais fabricantes nacionais de tintas gráficas. De acordo com o diretor técnico industrial, Abmael Pereira da Silva, o segmento de segurança é bastante diversificado, além de ter variáveis individuais, mas que podem mesclar-se entre si. “A tinta para cheque é a mais tradicional e o nosso principal produto, mas são nossos clientes, as gráficas, que especificam exatamente o que necessitam para atender às solicitações feitas a eles”. Segundo Silva, uma das novidades para esse segmento é a tinta preta condutiva, invisível mesmo sob luz UV e infra-vermelho, e identificada apenas com uma caneta especial com sistema de condutividade elétrica que, ao ser encostada na tinta, dispara um bip. “Essa tinta é usada hoje para ingressos. Um cliente desenvolveu um equipamento que coloca na ponta do polegar e um led acende mostrando se o ingresso se é verdadeiro ou falso”.

Máquinas de alta capacidade


Também os equipamentos para produção de impressos de segurança são diferenciados e tem, na alta produtividade, sua principal característica. Antonio Dalama, diretor da Rotatek Brasil explica que o fornecedor dessas máquinas precisa, antes de tudo, saber o foco de atuação da gráfica, trabalhos e demandas que terá. “Cada um deles implica em diferentes processos, sendo, todos eles, de alta complexidade. A impressão desses materiais exige um grande know how, que pertence à indústria gráfica, porque a expertise da indústria de máquinas consiste em atender às demandas dessa indústria e de seus clientes”.

As máquinas para essa finalidade, segundo Dalama, têm, em geral, mais de cinco torres de impressão, que podem ser acionadas simultaneamente em um único processo ou combinar dois, três e até quatro ou mais processos, como offset, flexografia, serigrafia, hot-stamping, impressão eletrônica e talho-doce. “Além disso, as máquinas podem combinar tipos de saída diferentes em folhas, em sanfonas ou em bobinas, ou os três juntos, troqueladores e finalizadores”.

Dalama explica ainda que é essencial que os equipamentos trabalhem in-line. Se uma máquina combinar a aplicação da antena RFID, flexografia, offset e impressão eletrônica, por exemplo, todas as diferentes unidades e processos têm de manter, ao longo da impressão, a mesma velocidade, o mesmo registro e idêntica qualidade final. “O grande segredo do impresso de segurança é que não pode haver a mínima variação de um impresso para o outro”.

A Comprint comercializa no Brasil duas linhas específicas para esse fim, que são as impressoras rotativas offset da marca holandesa Drent Goebel, e as máquinas para produção de cartões inteligentes (smart cards), de crédito, etiquetas e tíquetes inteligentes (RFID) da alemã Melzer. De acordo com o gerente de produto Alexandre Maiolo, essas impressoras possuem sistemas com tecnologias de difícil duplicação. “Geralmente possuem um alto controle de gerenciamento por meio de software sofisticado, associado a sistemas de leitura e inspeção como câmeras OCR de alta precisão e leitores de códigos de barra ou bidimensionais”.

Com tais requisitos preenchidos pela indústria gráfica seria de se esperar que não houvesse mais falsificações. Se isso ainda está longe de ser uma realidade, o setor – gráficas e fornecedores unidos – continua aperfeiçoando seus equipamentos, insumos e métodos de produção. O diretor técnico da Casa da Moeda, Carlos Roberto de Oliveira, revela que até o final do ano, atendendo a uma lei federal, serão colocados no mercado selos fiscais de cigarro com código impresso invisível, diferente do que existe hoje, que é apenas um selo de segurança. Esses novos impressos permitirão o controle e o rastreamento de toda a produção de cigarro no país – que sofre perda anual de aproximadamente R$ 1 bilhão em impostos com o contrabando, de acordo com a Associação Brasileira de Combate à Falsificação – isso para mencionarmos apenas um dos focos dos crimes de adulteração de documentos e de pirataria que trazem enormes prejuízos a economia e à sociedade.

Texto: Ada Caperuto
Fonte: Abigraf Nacional

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